Hoje decidi apanhar um banho de sol e, para dar início ao processo (que, adianto, não consegui levar a bom termo visto que em 5 minutos já suava como uma porca), escolhi um qualquer livro da estante aqui de casa, sem ligar ao título ou à sinopse. Estava numa de aventura. Sem paciência para escolher. Fui a ver e tinha agarrado "A Metamorfose" do Kafka. 

Logo na primeira página do livro fico a saber que Gregor Samsa, um caixeiro-viajante, acorda transformado num insecto gigante. Pela descrição deduzo que o Gregor fosse agora uma barata mas tal não parece preocupá-lo por aí além. O homem, em vez de ficar horrorizado, começa por descobrir as várias característica do novo corpo - as partes moles, a parte dura, a dimensão das patas, as dificuldades de movimento, o guincho que lhe substituiu a voz - intervalando a curiosidade doentia com doentios devaneios sobre as horas e o alarme que não deve ter tocado, o atraso para o trabalho, a família que o obriga a ficar preso nesse mesmo trabalho "só" por 6 anos, até lhes quitar uma dívida que têm para com patrão. 

Julgo nunca ter lido nada de Kafka. Já tinha ouvido falar dele. Sei que é alemão e uma breve pesquisa na internet fez-me perceber que a sua "Metamorfose" foi concluída em vinte dias mas demorou dois anos a ser publicada e acabou por ser a sua obra mais discutida e estudada. Percebe-se porquê. Em poucas páginas Kafka pôs-me a pensar. Em mim, em todos nós, na minha vida em particular e na vida de todos aqueles que me rodeiam. 

Assim como Gregor, também nós vamos acabando por ter uma espécie de impermeabilidade em relação àquilo que porventura pode mudar o quotidiano a que estamos habituados. Como Gregor também nós nos deixamos ficar, como o que temos e com aquilo que achamos ser a nossa sina, ignorando o que de fora nos vai tentando mudar, mesmo que o "de fora" sejamos nós próprios, o que passamos a sentir. 

Ignoramos aquele homem bonito na rua, aquela frase dos nossos pais, o facto de os nuggets do Mc Donalds não serem feitos de frango. Em vez disso, suspiramos por aquele actor da televisão, citamos palavras que pesquisamos no google e comemos os nuggets com molho de maionese e alho. Ou salsa. Eu acho que o molho mudou por isso opto pelo primeiro. Inventamos a desculpa de que nada poderíamos fazer porque ele tem namorada, os nossos pais são uns chatos, os nuggets são bons. 

É estranho. É estranho que um homem que acorda feito num insecto se resigne a isso mesmo e tente desesperadamente levantar-se da cama para não chegar atrasado ao trabalho, ignorando a sua metamorfose. 

Da mesma forma que é estranho, mas principalmente triste, que nos contentemos com uma espécie de felicidade que não passa de uma espécie de vida confinada a uma zona de conforto que nos impede de chegar mais longe do que isso. 

Mais triste ainda é que a culpa não é de ninguém a não ser de nós mesmos. Que por mais indomáveis que queiramos ser damos por nós envergonhados e amedrontados. Conformados. Como Gregor. Mas nunca como Kafka. Que escreveu uma obra em 20 dias do ano de 1912 e é lido e pensado, ainda hoje, em pleno 2016, por uma gaja que está de folga e quer aproveitar o sol.

Nem todos temos a coragem ou o dom de ser Kafka. Mas devíamos. 

Catarina Vilas Boas
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