Nunca concordei com aquela teoria mirabolante de que as barbies impunham nas crianças um conceito irreal de beleza. Isso são merdas de adultos! As crianças não ligam puto. 

Eu sei que tinha imensas, não era parecida com nenhuma e isso nunca afectou a minha auto-estima. Nem me fez achar feias as mulheres que não são brancas, loiras e esguias. São bonecas. E bonecas não fazem os valores ou as percepções de ninguém.

Ainda assim não posso deixar de parabenizar a Mattel por ter adoptado outros modelos, mais baixos, mais curvilíneos e etc. Comecemos pelos brinquedos, já que nas televisões, nas revistas, nos catálogos e nos outdoors está difícil.

Afinal de contas, o problema sempre foi a Barbie. Os rasgos de hipocrisia da nossa sociedade nunca cessarão de me surpreender.



Catarina Vilas Boas
Depois de 1500 visitas à Zara lá consegui gastar o cartão oferta do maldito casaco que comprei online e que parecia um saco de batatas nas costas.

(Note to self: NUNCA mais comprar com cartão oferta. Depois uma gaja fica com o dinheiro empenado e tem que o gastar obrigatoriamente lá).

O que vale é que estamos em saldos e sempre deu para perder um bocado a cabeça sem perder muito na carteira. É que a Zara - perdoem-me as fashion girls por esta blogosfera afora - é cara como a m*rda. E ninguém me venha com coisas, a qualidade também é uma m*rda. A única coisa que safa aquilo é o design porque, a verdade é para ser dita, a Zara é sempre a primeira a copiar os grandes nomes da moda. Nisso ninguém a bate!!

Ir às compras sozinha na Zara é outra m*rda. Em época de saldos as funcionárias não vão buscar nada. "Só se for colecção" e pronto, uma gaja até percebe, são ordens.

Mas o que uma gaja não percebe são os tamanhos de lá. É que tão depressa um S está largo e há que recorrer ao XS, como o M está apertadíssimo e uma gaja tem que chafurdar na lama de pegar num L. 

Nas calças é igual: ora fico a nadar num 36, ora o 38 não me passa das coxas. Eu ainda tento fazer aquilo escorregar por lá acima, aos saltinhos feita acrobata escondida atrás da cortina do provador... mas não dá! Então pronto, a solução é trazer um S, um M e um L. Em épocas de saldo às vezes só há XS e L. E uma gaja escolhe um dos dois e depois vê que não dá e esquece-se que não havia M, então toca a vestir de novo e a procurar o tamanho que nem sequer existe em primeiro lugar. Um drama! Bufo por todo o lado! E no final: um montão de roupa que não se compra.

E o problema está mesmo aí. Nesse montão de roupa que não compro e que tenho que colocar no cesto à saída do provador. Parece o "walk of shame" de quando uma gaja anda pela rua, de manhã, com a roupa e a maquilhagem borratada da noite anterior. Para piorar a situação, eu vou sempre às compras de manhã, ou seja: não está lá quase cliente nenhuma e eu sinto-me mal por ser a única a dar trabalho às nojentas das funcionárias.

Eu sou uma cliente muito boazinha. Sou mesmo! Foi a minha mãe que me passou esses valores! Desde pequenina, quando ia comigo às compras. Agora que vou sozinha tento contornar a coisa (porque há funcionárias que não merecem) mas sinto-me tão culpada que não consigo levar os meus intentos avante.

Às vezes apetece-me deixar os cabides todos no provador e atirar com a roupa toda amarrotada para aqueles cestos que estão à saída. Mas acabo sempre a pôr nos cabides o que puder, dobrar o que não tiver cabide e a colocar tudo com muito jeitinho - como se aquela merda fosse feita de porcelana - no cesto.

Pareço outra pessoa! Tão educadinha... E, como disse, há funcionárias que não merecem. As da Zara, por exemplo, são dessas. Eu nunca vi daquilo, credo. Parece que foram escolhidas a dedo.

Eu sei, eu sei, as pessoas têm sentimentos e podem estar num dia mau. Pois na Zara estão sempre todas em dia mau. Às vezes questiono-me se a quantidade de estrogénio da mulherada que lá entra altera as hormonas de quem lá trabalha e elas ficam continuamente em período menstrual. Só isso explica a antipatia daquela gente. E atenção que eu não estou a falar de sorrisos. Um sorriso fica sempre bem no atendimento ao público, mas não se pode exigir isso às pessoas. Aliás, tenho para mim que na Zara isso deve ser ordem da gerência. Como elas são obrigadas a usar batom, se calhar a empresa decidiu instaurar a política de não mostrar a cramalheira para evitar aquela cena de se ver o vermelho nos dentes.

Não, eu não falo de sorrisos. Falo de educação. Se eu dou bom dia, boa tarde ou boa noite a alguém, espero que esse alguém me retribua. Eu, até ao meu pior inimigo, retribuiria um bom dia, uma boa tarde ou uma boa noite. Já aconteceu! Com azedume, claro está, mas ainda assim com cordialidade. Chama-se educação. Coisa que na Zara destes lados não existe.

Há excepções, claro. Há sempre. Assim recentemente lembro-me de uma rapariga que me atendeu na caixa da Zara do shopping que era muito simpática e que me respondeu em condições. Aliás, a mesma pessoa que para mim foi antipática e mal educada pode ser simpática e bem educada para outras. Eu já vi! E ouvi... Mas isso só acontece com algumas clientes. As seleccionadas. Aquelas que uma gaja lhes olha para a raposa pendurada ao pescoço e os brincos de ouro do tamanho de pires do café e percebe logo porque é que a funcionária se transformou em João Baião da candonga. "Ohhhh que lhe fica tão bem!". "Dá para qualquer estação!". "Está lindaaaa". Aquilo dá-me umas ganas tão grandes por mim acima que só me apetece abrir a cortina do provador, mesmo em soutien e cueca, e dizer à raçada de canixe da funcionária que se entrei na loja é porque tenho dinheiro para pagar!

Mas não. Trinco a língua, engulo o veneno e ponho a roupa toda nos cabides, dobro o que não tiver cabide, pego no que vou levar comigo e coloco o resto, muito direitinho, no cesto à saída dos provadores. E nessas alturas penso que o universo pode retribuir-me a superioridade. Se calhar, um dia, alguém vai ver o jeito que eu tenho para aquela merda e oferecer-me emprego ali, naquele momento. Enquanto isso não acontece, honro os ensinamentos da Mina, que ainda agora, nas raras ocasiões em que vamos as duas às compras, arruma a roupa toda que experimento.

Catarina Vilas Boas

"O sol, as praias e a hospitalidade são pouco distintivos. Há vários países com características semelhantes e, em matéria de clima, o nosso não é tão bom como o pintamos e anunciamos." 

O que distingue Portugal dos restantes, é que é mais barato. Somente isso. Desiludam-se todos aqueles que pensam que somos a jóia na coroa. Quanto muito somos um pedaço de pechisbeque à venda numa loja de chineses (qualquer uma à sua escolha, das 19872498598348 espalhadas em território nacional). 

E, atenção, não estou a dizer que não temos um país bonito. É lindo, sim senhor. Para "jardim à beira mar plantado"... Mas os turistas não vêm cá pela beleza, pela história, pela gastronomia ou pela arquitectura. Ou melhor, vêm, mas só porque é barata.

Catarina Vilas Boas
Lembram-se daquela música que aqui há tempos estava muito em voga e que tinha como tema "os maridos das outras"? Pois é. Deviam fazer uma dessas mas para os filhos das outras. Das mães, esse ser sempre iluminado e cujo amor se estima incondicional.

A minha mãe não teve a sorte de ter uma filha como as filhas e os filhos das outras. E ainda por cima só teve uma! Nem tentou à segunda. Acho que podemos dizer que se resignou à má sorte... Eu nunca fui como as filhas e os filhos das outras. Porque os e as das outras é que são!

Começaram a falar aos 3 meses, a andar aos 4, e aprenderam a usar o bacio em 2 dias. 

Nunca tiraram macacos do nariz ou coloriram fora das linhas. Cáries nem vê-las! "Sempre lavou os dentes. Todos os dias!" Pois, por isso é que cresceram com eles amarelos como uma gema de ovo e passaram a puberdade meio fanados. E a dentadura está torta por causa da genética, que os filhos e as filhas das outras nunca mamaram na chupeta.

Quando os filhos e as filhas dos outros faziam asneiras, em pequeninos, ouviam-se sempre as mães a dizer que "em casa não faz disto, está-se só a armar".

Tiveram sempre boas notas! Eram génios na pré e permaneceram génios até à vida adulta. Se essa genialidade não se verificava na pauta era porque eram muito distraídos, não tinham sorte com os professores ou os colegas eram os culpados ("É uma turma tão problemática...").

Os filhos e as filhas das outras nunca se portaram mal, nem faltaram às aulas ou responderam torto a um professor.

Os filhos e as filhas das outras não bebem álcool nem fumam charros. Nunca beberam. Nunca fumaram. Daquela vez que as mães lhes apanharam o isqueiro, a erva e as mortalhas era porque eles, tão bons moços, estavam a guardar aquilo a um amigo.

Se tiverem tido a sorte de nascer com pila então pode-se dizer que, realmente, nasceram com o cu virado para o céu. Porque se às filhas das outras tudo é permitido, aos filhos então é uma alegria! Assim de repente vêm-me à cabeça uma mão cheia de exemplos. Cresceram tolhidos. E a vida de crescidos tem-lhes corrido tão bem (ahah!).

Os filhos e as filhas das outras são pró-activos, sempre presentes. Os melhores do mundo, mesmo que já tenham erguido a mão para enfardar a mãe mais do que uma vez. Ou batido com o carro contra um esteio que está ali, no caminho para casa, há mais de 20 anos.

Os filhos e as filhas das outras são sempre os mais maduros. Cresceram muito depressa! Agora que arranjaram emprego (part-time, o primeiro da vida) matam-se a trabalhar, coitadinhos. Até tão tarde!! São uns e umas mártires (apesar de terem as mesmas horas de trabalho diário que os outros e ainda por cima serem de direita, que é como quem diz: não se deviam queixar porque "os sacrifícios são necessários" e agora vão FINALMENTE começar a descontar para isso).

As filhas das outras são virgens. Sexo? Não sabem o que é. E quando souberem não vão gostar, com certeza! Pornografia? Nunca viram. Masturbação? Pílula? Broche? Tudo coisa de galdéria que chega a casa de manhã.

Aiii os filhos e filhas das outras... Podia continuar aqui a dilacerá-los e las em genuidade por linhas e linhas. E que gozo me dava! Há tanto para dizer...

Mas termino com o apontamento que me fez escrever tudo isto. Porque o problema dos filhos e das filhas das outras são as outras - as mães.

A minha tem muitos defeitos mas é única. E não o é por saber muito bem o que tem em casa! Há muitas mães que o sabem e a minha nem sequer sabe tudo. Afinal de contas, uma gaja tem direito à sua privacidade e aos seus segredos obscuros.

Não. A minha mãe é única porque não é hipócrita como as mães dos outros e das outras. É uma mãe consciente. Tenho para mim que, como às outras, não lhe agrada quando falam mal de mim, mas quando é verdade remete-se ao silêncio. Afasta-se dessas mães prodigiosas e deixa-as destilar fel como se não tivessem veneno em casa.

Quando a minha mãe me defende é porque tem realmente razões para isso. É porque eu mereço indubitavelmente defesa. E o bom de ter crescido assim (a ouvir falar as mães dos outros e das outras e a saber como eles e elas são) é que eu não preciso de defesa.

O que elas dizem não me chateia. Pelo contrário: dá-me prazer. As palavras variadas e discursos veementes são a prova renovada da sua estupidez. Ignorância, idiotice... Chamem-lhe o que quiserem!

Eu, sentada, a sorrir por dentro enquanto as ouço do alto das suas lições de moral, só consigo pensar no mítico provérbio português: Vozes de burra não chegam aos céus.

E não chegam mesmo! Acreditem. Eu sei. Elas falam falam falam... E é deixá-las falar.

Coitadas. Não sabem melhor. 

Catarina Vilas Boas
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