Crónica de uma ida ao provador na Zara

Depois de 1500 visitas à Zara lá consegui gastar o cartão oferta do maldito casaco que comprei online e que parecia um saco de batatas nas costas.

(Note to self: NUNCA mais comprar com cartão oferta. Depois uma gaja fica com o dinheiro empenado e tem que o gastar obrigatoriamente lá).

O que vale é que estamos em saldos e sempre deu para perder um bocado a cabeça sem perder muito na carteira. É que a Zara - perdoem-me as fashion girls por esta blogosfera afora - é cara como a m*rda. E ninguém me venha com coisas, a qualidade também é uma m*rda. A única coisa que safa aquilo é o design porque, a verdade é para ser dita, a Zara é sempre a primeira a copiar os grandes nomes da moda. Nisso ninguém a bate!!

Ir às compras sozinha na Zara é outra m*rda. Em época de saldos as funcionárias não vão buscar nada. "Só se for colecção" e pronto, uma gaja até percebe, são ordens.

Mas o que uma gaja não percebe são os tamanhos de lá. É que tão depressa um S está largo e há que recorrer ao XS, como o M está apertadíssimo e uma gaja tem que chafurdar na lama de pegar num L. 

Nas calças é igual: ora fico a nadar num 36, ora o 38 não me passa das coxas. Eu ainda tento fazer aquilo escorregar por lá acima, aos saltinhos feita acrobata escondida atrás da cortina do provador... mas não dá! Então pronto, a solução é trazer um S, um M e um L. Em épocas de saldo às vezes só há XS e L. E uma gaja escolhe um dos dois e depois vê que não dá e esquece-se que não havia M, então toca a vestir de novo e a procurar o tamanho que nem sequer existe em primeiro lugar. Um drama! Bufo por todo o lado! E no final: um montão de roupa que não se compra.

E o problema está mesmo aí. Nesse montão de roupa que não compro e que tenho que colocar no cesto à saída do provador. Parece o "walk of shame" de quando uma gaja anda pela rua, de manhã, com a roupa e a maquilhagem borratada da noite anterior. Para piorar a situação, eu vou sempre às compras de manhã, ou seja: não está lá quase cliente nenhuma e eu sinto-me mal por ser a única a dar trabalho às nojentas das funcionárias.

Eu sou uma cliente muito boazinha. Sou mesmo! Foi a minha mãe que me passou esses valores! Desde pequenina, quando ia comigo às compras. Agora que vou sozinha tento contornar a coisa (porque há funcionárias que não merecem) mas sinto-me tão culpada que não consigo levar os meus intentos avante.

Às vezes apetece-me deixar os cabides todos no provador e atirar com a roupa toda amarrotada para aqueles cestos que estão à saída. Mas acabo sempre a pôr nos cabides o que puder, dobrar o que não tiver cabide e a colocar tudo com muito jeitinho - como se aquela merda fosse feita de porcelana - no cesto.

Pareço outra pessoa! Tão educadinha... E, como disse, há funcionárias que não merecem. As da Zara, por exemplo, são dessas. Eu nunca vi daquilo, credo. Parece que foram escolhidas a dedo.

Eu sei, eu sei, as pessoas têm sentimentos e podem estar num dia mau. Pois na Zara estão sempre todas em dia mau. Às vezes questiono-me se a quantidade de estrogénio da mulherada que lá entra altera as hormonas de quem lá trabalha e elas ficam continuamente em período menstrual. Só isso explica a antipatia daquela gente. E atenção que eu não estou a falar de sorrisos. Um sorriso fica sempre bem no atendimento ao público, mas não se pode exigir isso às pessoas. Aliás, tenho para mim que na Zara isso deve ser ordem da gerência. Como elas são obrigadas a usar batom, se calhar a empresa decidiu instaurar a política de não mostrar a cramalheira para evitar aquela cena de se ver o vermelho nos dentes.

Não, eu não falo de sorrisos. Falo de educação. Se eu dou bom dia, boa tarde ou boa noite a alguém, espero que esse alguém me retribua. Eu, até ao meu pior inimigo, retribuiria um bom dia, uma boa tarde ou uma boa noite. Já aconteceu! Com azedume, claro está, mas ainda assim com cordialidade. Chama-se educação. Coisa que na Zara destes lados não existe.

Há excepções, claro. Há sempre. Assim recentemente lembro-me de uma rapariga que me atendeu na caixa da Zara do shopping que era muito simpática e que me respondeu em condições. Aliás, a mesma pessoa que para mim foi antipática e mal educada pode ser simpática e bem educada para outras. Eu já vi! E ouvi... Mas isso só acontece com algumas clientes. As seleccionadas. Aquelas que uma gaja lhes olha para a raposa pendurada ao pescoço e os brincos de ouro do tamanho de pires do café e percebe logo porque é que a funcionária se transformou em João Baião da candonga. "Ohhhh que lhe fica tão bem!". "Dá para qualquer estação!". "Está lindaaaa". Aquilo dá-me umas ganas tão grandes por mim acima que só me apetece abrir a cortina do provador, mesmo em soutien e cueca, e dizer à raçada de canixe da funcionária que se entrei na loja é porque tenho dinheiro para pagar!

Mas não. Trinco a língua, engulo o veneno e ponho a roupa toda nos cabides, dobro o que não tiver cabide, pego no que vou levar comigo e coloco o resto, muito direitinho, no cesto à saída dos provadores. E nessas alturas penso que o universo pode retribuir-me a superioridade. Se calhar, um dia, alguém vai ver o jeito que eu tenho para aquela merda e oferecer-me emprego ali, naquele momento. Enquanto isso não acontece, honro os ensinamentos da Mina, que ainda agora, nas raras ocasiões em que vamos as duas às compras, arruma a roupa toda que experimento.

Catarina Vilas Boas



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9 comentários :

  1. Ahhh como te entendo. Quanto aos tamanhos, o que ainda me salva é eu gostar de roupa larga. Mas na Zara...meh. Mesmo em saldos, fico a pensar que a qualidade deixa muito a desejar!

    Essa da simpatia por acaso não me queixo, tenho tido sorte. Meia volta lá aparece uma enjoada, mas é raro.

    Jiji

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    1. Tens tido sorte mesmo, porque por aqui há duas Zaras e são um poço de azedume! Por acaso nestes saldos encontrei boas peças mas, como escrevi, foram precisas 1500 idas à loja. Jeez.

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  2. E obrigada! Este texto é em tudo o que eu também acho e também faço como tu, volto a colocar a roupa no sítio... E pergunto-me "Mas para quê?" lol.
    Eu ainda vou acrescentar outra coisa: o caminho para as caixas é o caminho do arrependimento: vês mais roupa e cenas penduradas por todo o lado, do que propriamente produtos para vender.
    Quanto à parte da educação, também faço das tuas palavras as minhas!

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    1. Estou a ver que o mal é das Zaras de todo o país! O arrependimento é grande, mas uma gaja acaba sempre por arrumar os trapos no sítio... Shame on us -.-

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    2. Podes crer! Uma moça por mais que tente "não fazer" acaba por arrumar tudo novamente.

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  3. Estou fã! Adorei esta crónica, ri e identifiquei-me!
    Um beijinho e continua assim.

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  4. Muito divertido e verdadeiro este texto Catarina!
    Parabéns

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