Isto está a ficar estranho.
Catarina Vilas Boas
Foi ao sítio do costume, sentou-se à mesa do costume e na cadeira do costume, aquela que tinha um coração cravado no tampo de madeira e que lhe acendia uma veia de romântico inexistente para além daquele poiso. Quem teria desenhado aquele coração? E com quê? Teria sido com a chave de casa? Do carro? Do cacifo? Com uma caneta de bico metálico ou com a colher do café, ela própria com um grão gravado na ponta? Porque o teria feito? Estaria com alguém de quem gostava e quis-lhe demonstrar sentimentos duradouros naquela cadeira do café que testemunhava o encontro a dois? Ou teria sido alguém num bando de muitos outros, cansado das mesmas conversas de sempre e entediado pela duração da noite, na época sem wi-fi e sem nada melhor para fazer senão marcar a cadeira onde se sentava? Ele também estava cansado das conversas, das pessoas, do sítio e do café com cheirinho que pedia todos os dias. Todas as noites. Mas ao invés de cravar algo ele próprio, sentava-se naquela cadeira e divagava sobre o coração de outro. Aquela constância que ele sabia que ia estar sempre ali, à mesma hora. Mais ninguém se sentava naquela cadeira porque estava um bocado torta, manca e lhe faltava o apoio dos braços. E assim, imperfeita, esperava por ele todos os dias, vazia, cheia de interrogações para lhe oferecer. Era a cadeira do homem.


No dia seguinte chegaram as novas. De plástico. Praticamente invandalizáveis. Perfeitas. Mais bonitas e confortáveis. Sem história nem coração. Iguais a todas as outras. 

Catarina Vilas Boas


Gajas geneticamente magras com o rabo descaído.


E só não falo das mamas porque a Primark inventou uma coisa chamada Super Push Up que é basicamente um soutien 3 números acima, cheio de esponja, que faz qualquer franganita parecer uma Pamela Anderson. 

Catarina Vilas Boas

Pouco depois de ter comprado a minha Canon EOS 600D, deparei-me com umas reviews no YouTube que me fizeram questionar a aquisição. Isto porque, em todas elas, os autores/analistas concluíam que a única diferença entre esse modelo e o anterior era o ecrã rotativo e tal característica não valia, diziam eles, os euros a mais.

Pois bem, amigos, experimentem medir 1.56m e ter que tirar fotos às páginas inteiras de um jornal (daqueles antigos que mais parecem placares) colocado em cima de uma mesa e vão ver se o ecrã rotativo não vale cada cêntimo que pagaram por ele.

Não fosse o ecrã rotativo e só teria três hipóteses:

  1. Colocar-me em cima de uma cadeira; 
  2. Colocar o jornal no chão;
  3. Tirar fotos às cegas, de braço estendido e sem ver se a objectiva estava ou não a captar a página inteira de forma preferencialmente legível.
Não me parece que os encarregados do Arquivo vissem com bons olhos as duas primeiras... A terceira, para além de me incapacitar o braço direito (que já assim está num oito - tanta musculação tanta musculação e não aguenta meia dúzia de horas em riste), iria resultar em muitas tentativas fotográficas até que saísse uma imagem em condições - muito tempo perdido.

Dito isto, se são pequeninos e têm que tirar fotografias a jornais que abertos medem quase o mesmo que vocês, comprem uma Canon EOS 600D e caguem nos vídeos do YouTube.

Só para terem mais ou menos uma ideia do que eu estou a falar. E a garrafa é de 1L.


Catarina Vilas Boas




Ouvir isto perto da falha concêntrica.


Bom dia! 

Catarina Vilas Boas


Catarina Vilas Boas

Não admiro nas pessoas o facto de serem diferentes. Porque ser diferente é um dom, é dado, não exige trabalho além-fronteiras. O que eu admiro nas pessoas é a capacidade de serem diferentes. E a capacidade de ser diferente é muito diferente de o ser. Qualquer um tem a segurança para ser diferente entre quatro paredes, no círculo de amigos, nas redes sociais sob a protecção de um monitor. Mas nem todos possuem a ausência de medo que é necessária para o ser cá fora, no mundo. Na sociedade padronizada que oprime, a abarrotar de seres abomináveis, olhares afiados, esgares e comentários mordazes, muitas vezes sussurrados na penumbra da clandestinidade. Ter a capacidade de ser diferente é ser impermeável a tudo isso e permanecer firme na sua genuinidade. Ser-lhe fiel. 

Não é fácil. Mas é possível. E vale a pena. Só pelo gozo de ser para sempre, no imaginário daqueles que observam escandalizados, aquela peça que não encaixa, por mais voltas que se lhe dê, no puzzle preestabelecido das convenções da vida.

Porque pode ser-se diferente sem ter a capacidade de o ser. E quando é assim, é-se infeliz. 


Catarina Vilas Boas

É que curto andar na rua e ouvir discussões de namorados ao telemóvel. As pessoas não têm noção do quão ridículas soam quando estão apaixonadas.

Catarina Vilas Boas



Porque acordei com esta música na cabeça e não me saiu de lá o dia todo.


Picture me a magazine
Empty the night
No there isn't much redeeming
About this dawn's breaking light
Curtains, I could have it all
The window, the view, the second story fall

Creased and doubled up
Hung out on the tracks
She said a diamond wouldn't hurt
and that I should have rolled it back
Curtains, on a quiet side
Curtains can conceal what it is they were to hide

Curtains - Timber Timbre

Catarina Vilas Boas

Quando a vida corre bem, qualquer ode ou epopeia vira sumo de fruta sem polpa, água deslavada sem valor nutricional. Doce. Algo que se consome, não porque faz bem, mas porque não há nada melhor para consumir. Só vale a pena escrever quando a vida corre mal.

Quando a vida corre mal a escrita é álcool, é sal, limão e tequila, é vodka, é ácida e frenética, noites regadas a excessos e cabeças a andar à roda na manhã seguinte. Grita dor, mágoa, rancor e raiva e todos os sentimentos que corroem a alma. É algo que se consome apenas e precisamente porque faz mal. E sabe bem.

Os grandes escritores foram todos mentes conturbadas. Irrequietos, incompreendidos, entalados na sua própria pele, possuídos, viciados nos prazeres da vida e na culpa que acarretam. Os grandes escritores tiveram uma vida de merda a maior parte do tempo e assim, subnutridos pelas adversidades, nasceram génios de expressão literária. Porque o negativo há-de ser sempre mais forte que o positivo, o ódio mais forte do que o amor, a falta mais forte do que a presença. 

Quando a vida corre bem, quando se tem tudo, perde-se a vontade de correr atrás do leitor. Para quê? Dar sentido às letras? A ironia, a sagacidade das frases compridas ou de uma palavra apenas antes do ponto final, tudo junto não passa de um esforço desnecessário.

E digo esforço porque a felicidade apaga a inspiração, sufoca-a na ânsia de se ver, afunda-a nos confins da cama e da escuridão, outrora melhores amigas, agora tidas como ingratas.

E digo desnecessário porque, quando se é feliz, deseja-se somente esparramar a felicidade na cara dos outros, espremê-la sem dó nem piedade, para todos lerem e invejarem, para que percebam, sem grandes ilusionismos, de uma vez por todas, o que está exposto. E o que é a escrita sem ilusão? Sem a magia da duplicidade? Sem o enigma é nada. Perde a graça e o condão. Estagna oca, bocejo atrás de bocejo, eventualmente arrumada num canto onde jamais voltará a ser procurada.

Não! Sem miséria não há paixão ou ardor, não há fogo nem labareda, não há chama que faz comichão na ponta dos dedos e que queima no frenesim de a extinguir. Sem miséria não há inspiração. E sem inspiração não há nada. Que valha a pena ler.



(Um porco há-de ser porco, já dizia Bocage.)
Catarina Vilas Boas
Aquele ar polido nunca lhe inspirara muita confiança. Pessoas que desfilam pelas ruas, com o cabelo certinho e a oleosidade da pele controlada, que se meneiam com a roupa perfeitamente engomada e a combinar, sem vincos, sem a mais pequena nódoa, sem sequer um fio saído. Aquelas pessoas que passam o dia intactas, permeáveis às imperfeições do dia-a-dia, não lhe pareciam reais. Imaginava-lhes os namorados e as namoradas, igualmente lustrosos, as casas perfeitas, sem uma dedada no vidro ou almofada fora do sítio. Os armários perfeitamente organizados por cores, sem uma única meia ímpar. Ele tinha um molho delas que todas juntas não faziam parelha! As casas de banho sem cabelos no chão, sem espuma sobrevivente na banheira, sem uma única gota no lavatório. Mas aquelas pessoas não lavavam as mãos? Ou limpavam a pia com uma toalha no final?

Como é que elas dormiam? Como é que faziam sexo? Se os lençóis das suas camas estavam sempre imaculados, como que esticados industrialmente. Pessoas daquelas não reviravam para um lado nem para o outro. Não tinham insónias. Deitavam-se na cama com o cabelo igualmente dividido por cima dos ombros, recostavam-se na almofada de penas de pavão, fechavam os olhos e dormiam. Era a única explicação que ele encontrava.


Por isso não gostava dela. Daquele ar polido chegava-lhe uma onda de Maria Antonieta. Não a real, coitada, que essa era uma miúda ingénua e inocente - ele sabia porque lhe tinha lido a biografia romantizada em destaque na Biblioteca Municipal. Mas aquela que eles retratavam nos filmes e que tinha dito "Se os pobres não têm pão, que comam bolos". Se bem que essa Maria Antonieta tinha um charme de tresloucada que lhe aguçava o apetite... e ela não!

Ou será que tinha?


Catarina Vilas Boas

Nunca gostei muito da história da Carochinha. Acho que desde pequenina que não me entrava na cabeça que alguém gastasse a única moedinha de ouro com que a sorte a bafejou, NA VIDA, em bijuteria e depois fosse passar a tarde inteira, à janela, a perguntar quem queria casar com ela. (Hoje consigo ver a ironia de lhe terem aparecido, como pretendentes, um burro, um cão, um porco, um boi, um gato e um rato. Qual a mulher que não os teve?)

E ela lá escolhia o rato. Porque ele só comia do bom e do melhor, presunto, queijo e carne assada, de tudo o que havia na despensa dos ricos. Ora, se um dia não apetecesse à Carochinha cozinhar e ela quisesse mandar vir uma pizza, um estômago habituado àquelas coisas não ia comer e calar. Já para não falar que a vida está cara e se ela ficou toda contente com os cinco mérreis que encontrou a varrer a casa, não me parece que tivesse posses para manter o gosto requintado do roedor. Fosse eu e tinha ficado com o gato que, convenhamos, ao menos é gato e, qualquer coisa, só tinha que abrir uma latinha de atum, das mais baratas, para ele ficar todo contente e ronronar aos seus pés de gratidão.

Apesar dos mais variados estereótipos machistas presentes neste conto infantil, a história era tolerável porque, no final, o rato caía numa panela de toucinho a ferver e morria.

Mas isso era dantes!! Numa versão mais recente que eu tive nas mãos, o malfadado rato, em vez de tombar no caldeirão, mama o toucinho, demora o tempo que precisa para fazer a digestão e uma sesta (tudo isto enquanto a Carochinha está à espera, feita múmia, no altar) e só depois se dirige à igreja, onde dá o nó e vive feliz para sempre.

O João Ratão sobrevive.


Catarina Vilas Boas
O Sean Bean é daqueles actores que me tem a fidelidade, desde o tempo do Senhor dos Anéis até Game of Thrones. As personagens dele têm sempre uma nuance errática que no entanto não me impede de lhes reconhecer genuidade e honra, quase automaticamente. Quando o Eddard Stark morreu, chorei como uma menina e jurei a mim mesma que não via nem mais uma temporada. E assim fiz. Desta vez vou sem medos, uma vez que ele detém o papel principal. Na nova série do TNT - Legends - Sean Bean é Martin Odum, um agente do FBI, especializado em missões deep undercover, metamorfoseando-se excepcionalmente numa pessoa diferente a cada trabalho, até ao dia em que começa a questionar sua própria identidade (fonte IMDB).


Por favor, não me matem mais o homem!!


Alguém já viu?

Catarina Vilas Boas




Sr.ª D. Matilde não tinha vivido a vida.

Em nova entrançava cebolas, distribuía pão e assava sardinhas para os irmãos. A infância foi passada, quando não trabalhava, de monte em monte à espreita de flores silvestres e dos casais que as amassavam em desalinho. Essa veia de voyeur rendera-lhe uma cicatriz no lábio superior, os dois dentes da frente lascados e uma juventude de parcos pretendentes. Chegada aos 18, casou na promessa de abalar para a cidade grande onde viviam as mulheres das revistas, com rouge nas bochechas e de cigarro nos lábios. Do marido há tão pouco a lembrar que mais vale nem lhe escrever o nome. Não era muito bonito. Mas ela também não. E apesar de não ter grande conversa, ninguém o batia à sueca ou na criação do unguento para as queimaduras, receita da tetravó Assunção, garantia de rendimento aceitável. 

A ideia era ter filhos. Não que ela gostasse muito de crianças, mas decidiu conceber um. Só um. Para dar continuidade ao nome e ao segredo do unguento que, apesar de ter sido fruto de cabeça de mulher, vá-se lá saber porquê, só era passado de macho em macho. Azar dos azares, não bastava ter levado com uma pedra na cara quando tinha 12 anos, Sr.ª D. Matilde afinal não podia ter filhos. Umas gotinhas de ratonex na sopa, foi o que bastou. Não para que ela gerasse uma criança mas para que o pai deixasse de existir. E assim, com a morte do marido que nem o nome vale a pena mencionar, morreu também a pomada caseira e milagrosa que, envolta em couve, cicatrizou as mazelas de muito boa gente.


Agora vive da reforma, bebe ginjinha às sextas-feiras e fuma cigarrilhas de mentol. Passa os dias à janela e vê, nas ruas empedradas do buraco onde mora, fantasias de uma juventude que poderia ter tido, de pernas à mostra e mãos atrevidas. Não vai à missa aos domingos, não sabe o credo e já esqueceu o significado das continhas do terço que a prima lhe trouxe de Fátima e que mantém pendurado à cabeceira da cama, só porque brilha no escuro. Nunca lhe deu para a religião, embora seja crismada – espiritualmente matura e com força para viver e testemunhar a fé. Qual fé? 

Não usa preto e apesar de nunca ter encontrado um tom de rouge que condizesse com a sua feição esquálida, pinta os lábios de vermelho, por princípio. Sr.ª D. Matilde não encontra alento no tricot, nem no ponto de cruz, nem nas tertúlias de bolinhos e chazinhos que as vizinhas organizam enquanto ela bebe ginjinha, às sextas-feiras. Uma vez foi lá, mas desertou passada meia hora, sem estômago para digerir a doçura raquítica daquelas mulheres amantizadas.

Quer mais. 

Se ao menos ela não se tivesse importado, como não se importa agora, que a achassem má pessoa, vadia, tolinha… Sozinha. Com o seu passado negro e o seu presente insosso. Na eterna e triste certeza de uma vida que não foi mas que poderia ter sido. Vivida.

Catarina Vilas Boas


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