Há sempre imensas coisas que me vai apetecendo escrever aqui mas são coisas tão pequenas que perdem a razão de ser de um texto. 

Se eu fosse como as outras bloggers escrevia-vos sobre as compras que fiz nos saldos, os cremes novos que uso e os seus efeitos na minha pele sebosa, as minhas encomendas no ebay ou na maquillalia, fazia um DYI de decoração para embelezar as paredes insípidas de quartos como o meu, apresentava os livros que leio, os vídeos que vejo, as séries que sigo religiosamente, os filmes que me arrastam até ao cinema.

Se eu fosse como as outras bloggers  (e vejo-me na obrigação de frisar que isto não é uma crítica, eu leio e sigo muitas dessas bloggers) eu escrevia-vos sobre a alimentação saudável que tento levar a cabo ou sobre o novo estilo de vida que tento incorporar com as visitas ao ginásio, mostrava-vos fotos das cheat meal (porque as outras não interessam a ninguém), do meu outfit of the day e, pelo caminho, fazia um make-up tutorial e uma morning routine com muito running à mistura porque o inglês está in e já não se usa o "a correr". Português, que língua tão brega, très démodé!

Se eu fosse normal  (e admitamos já que não sou e que isso é um ponto fortíssimo e positivo em todos os aspectos da minha vida) tinha escrito sobre o Trump ou sobre o escândalo da Padaria Portuguesa de uma maneira chata e sonolenta, porque sobre isso já  escreveram genialmente pessoas muito mais aptas que eu e tentar equipará-las é somente um triste procedimento. De dar dó!!

Não sou. Nem como essas bloggers (nem normal). Porque não tenho recebidos, nem um closet, nem ganho dinheiro com isto e a minha vida é tão oca de interesse que fazer vlogs e a trifecta diária dos posts seria - das duas uma - ou deprimente ou impossível. Admiro quem o consegue fazer. Eu é que  não tenho essa capacidade nem almejo tê-la. 

Excepto no que à assiduidade diz respeito...

Este blogue anda ao "Deus dará"! Abandonadíssimo. Mas vivo, ainda assim. E o bom de ter passado tanto tempo é que todas aquelas coisas tão pequenas se podem agora aglutinar num só texto de dimensão aceitável. E porque não fiz nenhum sobre 2016 (e queria muito fazer), vamos por aí.

Haveria muito a dizer sobre o ano volvido mas, em suma: foi um dos melhores da minha vida. E só não digo o melhor porque já conto 25 e há momentos que a memória deixa escapar. Em 2016 cumpri todos os objectivos a que me tinha proposto. Foi um bocado como um arrastão. A primeira coisa boa aconteceu e depois vieram as restantes, uma atrás da outra, como se a minha reconquistada estabilidade me sintonizasse numa frequência de bom Karma.

Comecei a trabalhar em algo que me dá, mais do que independência financeira, um enorme prazer renovado diariamente. Não é um mar de rosas. Nada nunca será. Mas, no final, vale a pena. Quem corre por gosto não cansa. Na altura escrevi um post para o blogue intitulado "Acho que ando a ter muita sorte" mas nunca o cheguei a publicar e ainda bem! Porque se há coisa que este ano me ensinou foi que sorte e azar todos temos, mas é a pessoa que somos em ambas as circunstâncias que faz de nós vencedores ou derrotados. No final, tudo é somente o resultado da mistura das nossas capacidades e da nossa dedicação.

Conheci pessoas e realidades diferentes que me fizeram ganhar maturidade. De certa forma acordei de uma espécie de  inocência (que nem eu sabia que tinha!) que perdi a custo de algumas desilusões. Nada que me fizesse sofrer! Pelo contrário, esse despertar foi uma catapulta para muitas mais coisas boas. É como em tempos me disse alguém que eu admiro enormemente: "Catarina, tu no meio de um conflito és como peixe dentro de água". E eu nadei. Muito e bem. Qual Michael Phelps!!

No meio disto tudo arranjo espaço para todos aqueles que não se importem de esperar uma semanita para estar comigo, comprei um carro, inscrevi-me no ginásio (e vou realmente ao ginásio), defendi a minha tese e terminei o mestrado com 17 valores, fiz uma tatuagem.

A conclusão que retiro, agora que sou uma pessoa menos céptica e menos dolorida, é que a felicidade é algo atingível e muito simples. O que me faltava era paz e sossego, afastar-me de lugares tóxicos e pessoas da mesma fibra que, hoje em dia, não tento combater, apenas aceito que existem e evito. Não é medo, como anteriormente queria descaradamente demonstrar não ter, mas sim a realização de que não vale a pena gastar as minhas energias nessa cruzada. Maçã podre cai sozinha. E como cai!! Eu bem as vejo...

E agora cá estou. Tranquila. Estável. Segura. Com novos objectivos e a esperança de que 2017 seja metade do que 2016 foi. Se for só metade, já está bom. No foco levo metas como a evolução profissional e pessoal, uma nova tatuagem, um livro por mês, uma viagem ao Brasil, um iphone, 0 celulite, muitos dias a tostar ao sol na praia ou na piscina, muitas horas de devaneios adolescentes com as minhas primas, debates adultos feitos de amor puro com os meus pais e muitas aventuras cujos traços não consigo prever.

Gostava de prometer em verdade que vou ser mais assídua, que não vou estar tanto tempo sem passar por aqui, espaço tão querido onde faço uma das coisas que mais gosto na vida. Mas não posso. Em verdade não posso, e hoje tenho essa noção vincada. 

Posso é prometer tentar obrigar-me a vir cá pelo menos uma vez por mês, fazer disso uma das minhas metas para 2017 e dar uma de "running" para a alcançar. Não fica escrito em pedra, mas fica o boato no ar. Mesmo que não cumpra, aqui serão sempre bem-vindos todos aqueles que queiram ser confrontados com os meus textos mais antigos e obscuros, ou com este que é de uma luminosidade pegada.

Não será sempre interessante mas será sempre permanentemente indomável, ainda que agora menos bravio, como eu :)










Sejam felizes e a verde! É isso que uma gaja leva da vida ;)
Não vale a pena colocar aqui o vídeo da Maria Leal a cantar. Toda a gente já viu. Foi repetidamente partilhado nesse poço de gente perfeita que é o Facebook, palco das mais altas autoridades em tudo o que é temática. 

Sem excepção acompanhado de um qualquer comentário jocoso (para não dizer insultuoso), o vídeo da actuação da senhora na TVI gerou uma onda de polémica que só lhe trouxe benefícios. E ainda bem, só mostra que, apesar de tudo, ela não é assim tão burra como todos a pintam: soube aproveitar os limões que a vida lhe deu e fazer uma lucrativa limonada.

Antes de mais, convém dizer que a Maria Leal não é a única pessoa que não sabe cantar e canta. Para mim, há muitos artistas portugueses que não sabem cantar e cantam. Tomemos por exemplo Katia Aveiro e, numa onda mais séria, Pedro Abrunhosa que, muito embora considere um colosso no que a letras diz respeito, pouco mais faz do que sussurrar. É o seu registo. Assim como é o registo da Maria Leal não cantar e sim entreter. O Steve Aoki também não é DJ e enche discotecas e festivais por onde passa. Eu já assisti e confirmo: é um entertainer de alta qualidade. E ninguém, por mais que não goste, tem o direito de o enxovalhar. Ou se dá a esse trabalho... São gostos. Não se discutem. E por mais que admitamos que se lamentem, a realidade é que ninguém tem nada a ver com isso.

O problema é que Maria Leal é portuguesa. Não é irmã de um jogador da bola e tem o azar de não ser bonita nem boa. A Maria Leal não é mais feia que a Érica Fontes. Mas a Érica é boa e faz filmes pornô reconhecidos internacionalmente. A Maria Leal é aquela que andava com aquele do Secret Story que abandonou a Bernardina. Foi gozada por ela e por ele, múltiplas vezes, em canal aberto e teve o tempo de antena que a TVI permitiu. A TVI, mais uma vez...

Por isso, que lhe interessa que gozem com ela agora? Mais do mesmo? A Maria Leal ignora. E eu, dos vídeos, retenho a alegria dos velhinhos para quem ela actuou, a viver em lares escondidos aos quais os artistas que se dizem a sério não têm vontade de ir, porque as televisões lá não filmam e os cachets não compensam.

A senhora não faz mal a ninguém. Só ouve quem quer. A sua voz de cana rachada é melodia para muitos ouvidos e a sua presença sinónimo de um dia diferente e mais divertido. Não matou, não roubou, não enganou ninguém e mesmo que o tivesse feito, merecia ser julgada nas devidas instâncias e não em praça pública. É este sempre o problema do portuguesinho. A felicidade ou o sucesso dos outros incomoda-o. Aquilo que os outros fazem importa-lhe sobremaneira, especialmente quando isso não o afecta de maneira nenhuma. Porque a cantoria da Maria Leal não afecta ninguém. Mas toda a gente está afectada. E está entranhado no sangue e na criação do portuguesinho o instinto de a julgar.

No meio disto tudo, uma salva de palmas para o Rui Unas que, mais uma vez, mostrou ser um profissional e uma pessoa de valor. Quase nem parece português! Entrevistou a senhora no Maluco Beleza e ao contrário do que todos pensavam, tratou-a com dignidade, sem paninhos quentes mas com respeito, coisa que, devo frisar, a maior parte desses respeitosos jornalistas portuguesinhos não fariam. O preconceito falaria mais alto.

É o mal que assola a nossa sociedade e se vê em tudo. Mas a Maria está, claramente, a cagar-se para isso. Nisso é um bocado como eu: eu também me estou a cagar para isso. Para aqueles que ficam afectados pelas minhas atitudes quando elas são somente minhas e em nada influencia as suas vidas. Para o Facebook também... As pessoas têm a importância que lhes damos. A Maria - como eu - tem claramente mais importância do que a que os outros têm para ela. E quanto à Maria eu não sei, mas eu garanto que vou continuar a cantar. Sempre e enquanto me apetecer.


Catarina Vilas Boas
Voltei!! Depois de um período cavernoso de ausência eis-me, com um tema mainstream que, de resto, tem com certeza sido o mote de muitas estimadas a Fátima Lopes por essa blogosfera afora.

Não se apoquentem. Este post e uma espécie de renovação na continuidade. Não é porque agora decidi comentar as toilettes das famosas que deixei de ser toda eu uma indomável. 

É só que foi com uma galeria de fotos dessa afamada noite que a minha inspiração voltou. 

A ser sincera, voltou antes, com um texto que merece algum tempo de amadurecimento antes de ser publicado (tenham medo...). Mas hoje retornou. Algo inédito neste período de silêncio forçado. Porque se este blogue se remeteu ao silêncio não foi por não ter vontade de falar. Foi antes por não saber como o fazer. Andava aí com um bloqueio danado! Vinha aqui para o editor de texto e tentava, tentava... no final tinha meia dúzia de linhas que me faziam levar as mãos à testa e o rato até ao botãozinho da cruz vermelho.

"Fechar". Uma miséria.

E depois lá está, os meus textos até podem ser sempre uma miséria para os outros. Eu aceito isso. Não me rala. Mas se o forem para mim, esqueçam, não vai acontecer de verem a luz do dia.

Posto isto, estando a minha ausência justificada, visualizemos então aos trapinhos das famosas.



Da arte de como estragar um casaco e uns sapatos tão giros com um vestido acortinado. Vai à Levi's ó Jéssica! Lá a ganga é feita com Dyneema!



Ok. Com menos boobs à mostra também se aproveitava, mas que é que eu percebo de moda? Também me parece que a altura do cano daquela bota não favorece o comprimento do vestido. Um segundo olhar (menos focado nas boobs) e parece que a Taborda está a regar milho. E de certeza que é isso que a está a pôr nervosa porque a mulher encontra-se, claramente, a suar do bigode.



Corre o boato de que a Helena Isabel andou pelos cantos escuros da VFNO a abrir a gabardine e a mostrar-se como veio ao mundo. Que ela é linda sem make up, já Portugal inteiro sabe. Sem roupa, ainda vai a tempo de saber.



Não escolheria. Mas no final também conta a dose de risco que as pessoas correm nestes eventos. Afinal de contas, é a Vogue Fashion Night Out!! Parece-me que tudo pesado, dá um balanço positivo. À rasquiiiinha! Mas positivo.



Do pescoço para cima - metade pipi das meias altas, metade Alexandra Lencastre sem volume. Do pescoço para baixo nem sei que diga. Mas essa bota não, Xana!



Sem os pompons de Sailor Moon na cabeça, sem a pena e sem a rede de pesca no final do vestido, talvez se aproveitasse. Não dá para ver bem as socas, mas do que dá também é melhor o obscurantismo. É muito 'sem' junto, mas eu consigo fazer milagres com pouco. Aceita-se.



Cláudia, por mais que me custe dizer-te...não gosto! O casaco é tudo de bom. Mas com essa camisa não funciona. Até te aceitava da cintura para cima... se não fossem as calças. As calças estragam tudo. É a cor, é o tecido, é um tudo que me faz, com dor no coração, dizer-te que não gosto. Obrigas-me a tanta reticência, Cláudia! Pareces um desgosto de amor!! Não é bonito. Mas vá, porta-te bem! Beijinho.



Tá bom. Nada surpreendente mas também a isso nos habitua esta que é a Sónia Balacó. Simplesinha que só ela. Uma romântica. Sempre. Destaque para o bom sapato. Comprava fácil.



Mau mau Maria! Muito mau. Todo um equadramento de quarto de dormir: um pijama feito com o edredon acetinado que a nossa avó comprou naquelas carrinhas de leilões do St. António. Parece que estou a ver o homem de megafone na mão e boina na cabeça atrás de ti pelas ruas de Lisboa a dizer que lhe 'roubastes o preduto'.



GOSTO! Gosto muito. Usava. Parece-me tudo bem desde as cores, à estrutura dos tecidos, ao corte. Só passava ali umas toalhitas anti shine da essence na zona T da Sara.Ou isso ou avisava a maquilhadora para não caprichar tanto no iluminador. De qualquer das maneiras, isso não interessa a ninguém porque a cara lava-se. Nota 10 prá Sara.



Não, Iva. Simplesmente não. Não para uma Vogue Fashion Night Out. Para um funeral talvez... E essa cara, miga? Bem se diz e é verdade que os anos não matam mas aleijam. Há que pedir ao cirurgião para não esquecer o pescocito quando te der os retoques semestrais.



"Oh não! Um fotógrafo!". Até ela se assustou com a ideia de ver imortalizado este seu tributo à Lady Gaga. E o sapato menina? A Lady Gaga não anda com esse sapato!!



A Mariana Monteiro é sempre a mesma coisa em todos os eventos!! Tanto quer fazer que, no final, tanto faz. Mas atenção que é sempre um tanto faz com muita pele à mostra. É assim mesmo Mary! O que é bom é para se ver e ainda tá pra nascer o homem que diga o contrário!! A não ser o Newton... É que a lei da gravidade não perdoa e tu quase nunca usas soutien... Não aconselho.



É caso pra dizer que até fico paneleira dos olhos... Ele que é isto? Não sei bem mas também não quero saber.

Catarina Vilas Boas


A vida não deixa nunca de ser uma coisa engraçada. Se não fosse assim também não teria piada. 

Em primeiro lugar, a chapadona que Portugal deu à França. 

Depois de todas as críticas - nunca construtivas, somente insultuosas - eis que os tugas vencem o Europeu e a arrogância de um e num país habituado a inferiorizá-los. Ninguém acreditava. A vitória (dos outros) estava garantida. Quando Ronaldo se vê forçado a abandonar a partida então é que qualquer réstia de fé se esfumaça. Ninguém acreditava mesmo! Ou se calhar, alguns acreditaram sempre. Fernando Santos, por exemplo. Eu não.

Ainda sobre Ronaldo. Não vou muito à bola com ele. Mas de bola ele realmente percebe e, mais do que isso, percebe de equipa. É um líder nato e muito embora tenha chorado lágrimas (que eu acredito terem sido de sangue) por não ter jogado mais do que 30 minutos, manteve-se sempre presente. Sobretudo na cabeça dos jogadores, que depois de perderem os pés do melhor do mundo, não desmoralizaram. Perderam os pés, mas não (nem nunca) o seu capitão. Ronaldo, mais do que jogar futebol. Intuitivo, empático, de levar tudo atrás dele, não às costas mas sempre ao lado. Tudo isso é Ronaldo e tudo isso é raro de se ver numa pessoa que é, realmente, o número um.

Para a História fica o jogo, o título, a taça, a cara de tacho dos franceses e a premonição do menino de ouro. Para a História fica o golo de Éder, o sofrimento dos adeptos, a Torre Eiffel que, manchada a vermelho e verde, não foi iluminada com as nossas cores por puro despeito, os sorrisos de quem lá estava e não estava mas, principalmente, o brilho de todos aqueles que, nascidos em Portugal, vividos em Portugal, existem em França diariamente e fazem lá o seu presente por motivos de força maior.

Podia criticar muita coisa. Sei que nos dias que se seguem não se falará de mais nada a não ser futebol. Em todo o lado, a toda a hora, no café, nos telejornais, na rádio... mas porra, nós merecemos!! Decidi pôr de lado tudo isso e abraçar apenas a alegria de sermos, pela primeira vez e contra tudo e todos, campeões europeus.

Subimos aquelas escadas não para receber medalhas, mas para beijar a taça. Isso ninguém nos tira. Levantaram ontem, de novo, o esplendor de Portugal.

Em segundo lugar... prefiro não dizer! Que seria da piada da vida se não existisse sempre envolta de algum mistério? ;)

Catarina Vilas Boas


Hoje decidi apanhar um banho de sol e, para dar início ao processo (que, adianto, não consegui levar a bom termo visto que em 5 minutos já suava como uma porca), escolhi um qualquer livro da estante aqui de casa, sem ligar ao título ou à sinopse. Estava numa de aventura. Sem paciência para escolher. Fui a ver e tinha agarrado "A Metamorfose" do Kafka. 

Logo na primeira página do livro fico a saber que Gregor Samsa, um caixeiro-viajante, acorda transformado num insecto gigante. Pela descrição deduzo que o Gregor fosse agora uma barata mas tal não parece preocupá-lo por aí além. O homem, em vez de ficar horrorizado, começa por descobrir as várias característica do novo corpo - as partes moles, a parte dura, a dimensão das patas, as dificuldades de movimento, o guincho que lhe substituiu a voz - intervalando a curiosidade doentia com doentios devaneios sobre as horas e o alarme que não deve ter tocado, o atraso para o trabalho, a família que o obriga a ficar preso nesse mesmo trabalho "só" por 6 anos, até lhes quitar uma dívida que têm para com patrão. 

Julgo nunca ter lido nada de Kafka. Já tinha ouvido falar dele. Sei que é alemão e uma breve pesquisa na internet fez-me perceber que a sua "Metamorfose" foi concluída em vinte dias mas demorou dois anos a ser publicada e acabou por ser a sua obra mais discutida e estudada. Percebe-se porquê. Em poucas páginas Kafka pôs-me a pensar. Em mim, em todos nós, na minha vida em particular e na vida de todos aqueles que me rodeiam. 

Assim como Gregor, também nós vamos acabando por ter uma espécie de impermeabilidade em relação àquilo que porventura pode mudar o quotidiano a que estamos habituados. Como Gregor também nós nos deixamos ficar, como o que temos e com aquilo que achamos ser a nossa sina, ignorando o que de fora nos vai tentando mudar, mesmo que o "de fora" sejamos nós próprios, o que passamos a sentir. 

Ignoramos aquele homem bonito na rua, aquela frase dos nossos pais, o facto de os nuggets do Mc Donalds não serem feitos de frango. Em vez disso, suspiramos por aquele actor da televisão, citamos palavras que pesquisamos no google e comemos os nuggets com molho de maionese e alho. Ou salsa. Eu acho que o molho mudou por isso opto pelo primeiro. Inventamos a desculpa de que nada poderíamos fazer porque ele tem namorada, os nossos pais são uns chatos, os nuggets são bons. 

É estranho. É estranho que um homem que acorda feito num insecto se resigne a isso mesmo e tente desesperadamente levantar-se da cama para não chegar atrasado ao trabalho, ignorando a sua metamorfose. 

Da mesma forma que é estranho, mas principalmente triste, que nos contentemos com uma espécie de felicidade que não passa de uma espécie de vida confinada a uma zona de conforto que nos impede de chegar mais longe do que isso. 

Mais triste ainda é que a culpa não é de ninguém a não ser de nós mesmos. Que por mais indomáveis que queiramos ser damos por nós envergonhados e amedrontados. Conformados. Como Gregor. Mas nunca como Kafka. Que escreveu uma obra em 20 dias do ano de 1912 e é lido e pensado, ainda hoje, em pleno 2016, por uma gaja que está de folga e quer aproveitar o sol.

Nem todos temos a coragem ou o dom de ser Kafka. Mas devíamos. 

Catarina Vilas Boas

A parte difícil de ser uma pessoa difícil é que quando somos fáceis as pessoas não acreditam que o estejamos a ser genuinamente, acabando por nos lograr os planos de uma convivência mais saudável.

É um drama. Pior ainda quando a pessoa com quem tentamos conviver é extremamente difícil também. Assim como nós. E também ela tenta, esporadicamente, ser mais fácil. Então duas pessoas difíceis entram numa espiral vertiginosa que, para além de desentendimentos, tem nela laivos de tentativas falhadas e ressentimento porque "Eu tentei" e não deu, de ambas as partes.

Mas tudo vale a pena quando a alma não é pequena. Há que encontrar meios-termos, terras de ninguém, serões de tréguas no meio de uma guerrilha feita de mentes casmurras. Há uns anos atrás isso ser-me-ia quase impossível. Mas o bom da vida é que nos ensina muita coisa! E as pessoas difíceis também...

Os tombos são pontos de reflexão e a reflexão ponto de viragem. Estamos sempre a crescer e que seria de nós, pessoas difíceis, sem outras pessoas difíceis que nos dessem que fazer? Pessoas fáceis também fazem crescer. Mas não há desafio maior que tentar chegar a bom porto com uma pessoa difícil. É como navegar no meio de uma tempestade, com um barco já gasto e ancorado. Se ainda assim chegarmos lá - ao bom porto - é porque somos uns piratas do c*ralho.

Catarina Vilas Boas


Pode não parecer mas eu acredito no amor. Como poderia não acreditar, quando amo e sou amada? Como poderia acreditar se morreria e mataria sem pensar duas vezes por outro alguém que não eu? Claro que acredito no amor. Não é para o amor que eu olho com cepticismo. O meu cinismo não se alimenta de amor, mas sim das pessoas que o encaram com leviandade. Para mim o amor é uma coisa séria. É e há-de ser. E por isso mesmo não invoco o seu nome em vão. 

Há pouco amor no mundo. Mais do que uma crise económica vivemos uma crise de valores e o amor, um dos valores mais altos, teria obrigatoriamente de escassear. A falta de amor vê-se nas opiniões dos que são contra o casamento homossexual, contra a adopção homoparental, contra o acolhimento dos refugiados... Vê-se aí - nessas opiniões suficientemente aceites para serem expressas, sem medo, em conversas de café ou nos murais do facebook - a falta atroz de amor. A falta de outras coisas também se vê, entre elas a vergonha na cara e dois dedos de testa. Mas principalmente a falta de amor.

Vê-se a falta de amor-próprio. Nas mulheres e nos homens que se rendem a comentários negativos, aos padrões da sociedade, a relações a meio gás. Vê-se a falta de amor na forma como tratamos os animais. Ou como tratamos a comida, esse substituto largamente utilizado por aqueles que não estão bem. Quem diz comida, diz álcool, tabaco, sexo, e tudo o mais que sirva para preencher o vazio que essa falta de amor deixa para trás.

Mas apesar desse buraco, visível, negro, fúnebre, de meter dó, eu acredito no amor. Eu acredito em pessoas que se completam nas faltas de cada um, como peças de um puzzle. Eu acredito que estar sozinho, apesar de benéfico, pode aleijar a longo prazo. Eu acredito nisso tudo.

Mas eu acredito no amor a sério. Não acredito no amor a fingir. Amor a fingir há muito por aí, ao virar de cada esquina. Amor a fingir nasce como cogumelos na falta de amor-próprio, do medo de ficar sozinho, do receio das pessoas que perguntam se "já namoras?" e, calhando a resposta de ser negativa, finalizam com um "já está na altura...". Com reticências. Sempre com reticências. Como se fosse deles a escolha de nos colocar reticências na vida ou de lhe definir um "já" de prazo de validade.

O amor é importante de mais para ser fingido. E é raro de mais para ser encontrado muitas vezes na vida. Quem diz "amo-te" facilmente não é de confiar. Com sorte, somos amados pelos nossos pais. E quando somos amados verdadeiramente pelos nossos pais, raras são as vezes em que não os amamos de volta. O amor dos nossos pais é o adubo para o amor-próprio, um bocado maltratado na puberdade, mas capaz de sobreviver para contar a história de uma vida adulta. E o amor-próprio é a base de tudo, somente ele permite o amor a sério.

O amor não é passeios de mão dada, pôr-do-sol na praia e domingos no shopping. Não! O amor não são relações que duram 3 meses, nem sequer 3 anos. Não! O amor não são viagens e fotos no instagram, ou dedicatórias escritas a mel. Não são pulseiras pandora ou rosas de jardim.

O amor é crescimento e evolução. É alguém que nos faz querer ser melhor e abandonar o que nos faz mal desde o dia em que nascemos. Os defeitos que nos são inerentes e aqueles que nos foram impostos por outros: a arrogância, a teimosia, o orgulho, a desconfiança, o medo. Amor é baixar a guarda. Contar segredos que nunca se contaram, chorar em frente a alguém, perdoar o imperdoável. O amor é mútuo. E fiel. Tem que ser. Porque amor não é meramente sexo ou atracção física. Nem isso é capaz de o abalar quando são meras aflições humanas. O amor é mais. Vê-se mais. Faz mais. Por cada um.

O amor merece respeito. Mais do que isso, merece tempo. Para nascer, para crescer, para sobreviver. O amor merece de nós muito mais do que palavras.

Claro que acredito no amor. Não é para o amor que eu olho com cepticismo. O meu cinismo não se alimenta de amor, mas sim das pessoas que o encaram com leviandade. Para mim o amor é uma coisa séria. É e há-de ser. E por isso mesmo não invoco o seu nome em vão. 

Catarina Vilas Boas

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